Múltiplos fatores estão redirecionando a forma como se produz e consome alimentos no mundo. Se há, por um lado, uma crescente preocupação com a maximização da ingestão proteica para fins de manutenção muscular e envelhecimento saudável, também existe, por outro, uma reação à pressão inflacionária dos preços de alimentos em mercados como o brasileiro, na qual as famílias buscam substituir proteínas caras, como a carne bovina, por opções de melhor custo-benefício, como ovos, frango e pescados.
Nesse universo complexo, a chamada Big Food (grandes corporações de alimentos), alteram a rota produtiva, predominante marcada pela venda volumosa de produtos processados, em direção aos mercados de nichos e de maior rentabilidade, na qual a indústria de pescados ganha estratégico protagonismo. Isto porque a variedade de peixes e frutos do mar consegue operar simultaneamente em mercados de iguarias, nichos premium e preços restritivos e na produção de proteínas de volume e escalabilidade, com menores preços unitários.
Pescados catarinenses na vanguarda
Abarcando cerca de 295,7 mil km² da Zona Econômica Exclusiva (ZEE)¹ da área marinha brasileira e com uma concentração de estruturas aquícolas que ultrapassa 79 mil viveiros - que ocupam uma área total de 13.807 hectares - Santa Catarina parte de uma posição produtiva que cruza a terra e o mar. O estado reúne simultaneamente a psicultura, indústria de transformação, portos, cadeia de frios, centros de pesquisa, elevada formação profissional e uma ampla rede de serviços ligadas à economia do mar.
A partir de duas frentes que envolvem o novo eixo da proteína, Santa Catarina é líder absoluta na produção de ostras e vieiras, produtos associados a diferenciação e de maior valor agregado; e está entre principais nacionais na produção de tilápias, sardinhas e atuns enlatados; produtos de alta escala e preços acessíveis.
Tal potência é evidenciada através dos grandes números: somente em 2025, a produção de moluscos avançou 11,3% (quase 10 mil toneladas), a de tilápia 6% (47,1 mil toneladas) e a produção de enlatados respondeu pela fatia predominante de aproximadamente 80% do mercado nacional.
Para além da disponibilidade marítima, o desempenho dos pescados catarinenses parte de uma sólida construção de uma cadeia produtiva verticalizada e internalizada, capaz de manter dentro do estado grande parte das etapas que convertem os recursos naturais em insumo industrial e alimento para o consumidor final.
Assim, 41,6% dos principais custos da pesca, aquicultura e da fabricação de produtos do pescado são supridos pelo mercado interno, que segue para a indústria catarinense (R$ 475 milhões), para os canais de food-service (R$ 882,4 milhões) e para saúde e educação local (R$ 17,7 milhões).
Indústria forte, balança comercial deficitária
A posição promissora do setor da pesca catarinense também enfrenta um paradoxo comum às indústrias de transformação brasileiras: comprar produtos mais caros do que os que vende. Entre 2020 e 2025, enquanto as importações atingiram uma média anual de US$ 384 milhões, puxadas especialmente pelos salmões e filés, as exportações registraram média de US$ 42, 4 milhões.
Ainda que o déficit persistente não represente exatamente uma fraqueza, visto que a capacidade de processamento e o mercado consumidor apresentam-se maiores do que a oferta local disponível para determinados peixes, o descompasso demonstra que parte relevante do valor movimentado pela indústria ainda é vulnerável às oscilações da economia externa.
Nesse sentido, cabe à indústria catarinense a habilidade de converter capacidade de processamento instalada em maior geração local de valor. Temas que envolvem a ampliação da regularidade da oferta, do desenvolvimento de produtos convenientes a partir de espécies locais e da concentração dos investimentos em biotecnologia, nutrição animal e aproveitamento de resíduos tornam-se, assim, centrais no âmbito das estratégias corporativas contemporâneas para contornar tais fragilidades na estrutura de oferta e demanda.
Modelos produtivos catarinenses
Os encadeamentos produtivos do setor de pescado distribuem-se por todo estado. Já os modelos produtivos, ainda que fortemente integrados, se desenvolveram de forma bimodal - basicamente marcados pela concentração da pesca industrial, na região norte e vale do Itajaí, e pela pesca artesanal, na região centro-sul.
Essa divisão territorial se expressa na estrutura empresarial do setor, caracterizada pelas diferenças de escala, tecnologia e capacidade de investimento que geram uma base produtiva em que se verifica a presença de fortes polos industriais coexistindo com uma base pulverizada de micro e pequenas empresas distribuídas ao longo do litoral.
A presença de microempresas nos principais ramos do setor, preservação e fabricação de produtos do pescado e os associados à pesca e aquicultura, representaram, respectivamente, 90,1% e 72,5% em 2025. A fragmentação aparece ainda no ciclo de vida dos negócios, que registra mais saída do que entradas no ramo desde 2023 – um processo que, visto em agregado, pode gerar um alerta no que tange o funcionamento da cadeia inteira, dada a múltipla dependência entre os elos.
Os investimentos públicos entrarão na onda?
Em um setor cuja potência agregada convive com unidades produtivas que, isoladamente, dispõe de pouca margem para absorver custos elevados ou realizar investimentos de longo prazo, o direcionamento público torna-se decisivo para preservar e ampliar os encadeamentos que conectam a pesca extrativa, a aquicultura e a indústria de transformação.
No caso de Santa Catarina, o direcionamento avança em ritmos distintos, uma vez que, entre 2013 e 2026, os financiamentos destinados à pesca cresceram em média 0,5% a.a., enquanto os direcionados à aquicultura avançaram cerca de 24,4% a.a. Trata-se de um retrato das formas pela qual a atuação do Estado age sobre atividades igualmente diferentes, visto que a pesca extrativa demanda instrumentos capazes de sustentar a operação diante da sazonalidade e dos custos elevados, e que a aquicultura encontra no crédito um caminho para expandir estruturas e tornar a oferta menos oscilante.
Na pesca extrativa, a principal política continua sendo a subvenção ao preço do óleo diesel, modalidade que objetiva ser um amortecedor para a frota e que destinou cerca de R$ 3,4 milhões para Santa Catarina em 2026. Já na aquicultura, o Pronaf e Pronamp concentram mais de 90% dos financiamentos, favorecendo a ampliação de viveiros e a modernização das instalações de pequenos e médios produtores.
Essa configuração, por vezes, organiza as políticas públicas em duas frentes relativamente demarcadas: 1) sustentação de custos operacionais e 2) financiamento da expansão produtiva. Por outro lado, a crescente integração entre captura, cultivo e processamento indicam que as fronteiras que dividem os modelos produtivos podem tornar-se excessivamente rígidas com o passar do tempo, sobretudo diante de questões comuns a respeito da regularidade da oferta, do avanço tecnológico, da conservação e distribuição da pesca e produtos do pescado.
A questão que surge, portanto, parece depender menos da substituição dos instrumentos existentes, mas mais de sua aproximação (e ampliação); de modo que políticas preservem as especificidades de cada atividade ao mesmo tempo em que avance sobre limites compartilhados.
Santa Catarina à frente
A conjunção de fatores diversos abriu caminho para os pescados, e Santa Catarina chega no novo ciclo com uma posição pouco comum, reunindo diversidade de espécies, capacidade de processamento, infraestrutura logística e presença em mercados de nicho e de escala.
Ao mesmo tempo, o estado possui uma estrutura produtiva profundamente heterogênea, com uma balança comercial deficitária. Esses fatores, inseridos em um cenário de acelerada transformação e de competição global, apresentam o desafio para o estado de transformar a liderança produtiva em capacidade de ditar os novos rumos do paradigma proteico.
Em outras palavras, os caminhos para o setor de pescados catarinense vão requerer das indústrias locais a habilidade de definir o que produzir, como produzir e, sobretudo, onde capturar valor; tornando Santa Catarina menos responsiva as mudanças de mercado e mais influenciadora das direções dele.
Texto por:
Thamiris Costa - Pesquisadora de Economia no Observatório FIESC
Referências:
¹ A Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira abrange cerca de 3,6 milhões de km ². Na estimação citada, a área marítima ao entorno de Santa Catarina corresponde a um recorte metodológico, e não jurídico, obtido a partir do prolongamento das dívidas costeiras SC-PR e SC-RS sobre as camadas oficiais de limites marinhos da DHN/Marinha do Brasil, até o limite de 200 milhas náuticas.
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