Migração e desenvolvimento: quando crescer não é suficiente
O debate sobre migração costuma começar pela pergunta errada. Em vez de perguntar apenas quantas pessoas chegaram a uma determinada região, deveríamos perguntar: o que essa região foi capaz de fazer com as pessoas que recebeu?
Santa Catarina oferece um laboratório particularmente interessante para essa discussão. Entre 2015 e 2025, o PIB catarinense cresceu 30% em termos reais, passando de R$ 430,3 bilhões para R$ 560,1 bilhões . O PIB per capita também avançou, de R$ 63,1 mil para R$ 68,4 mil, uma expansão real de 8,4%. Mas essa média estadual esconde uma realidade muito mais desigual. Analisando o desempenho regional a partir das regiões da FIESC, conseguimos perceber essas diferenças.
Enquanto o Extermo-Oeste elevou seu PIB per capita em impressionantes 31,7% entre 2015 e 2025, o Sudeste recuou 12,1%, o Vale do Itajaí caiu 7,1% e o Vale do Itapocu permaneceu praticamente estagnado. Não se trata, portanto, apenas de regiões que cresceram mais ou menos. Trata-se de regiões que tiveram trajetórias distintas de desenvolvimento. E aqui está o ponto econômico fundamental: crescimento do PIB não significa necessariamente aumento da prosperidade média.
Quando uma região recebe novos habitantes, o PIB precisa crescer em velocidade suficiente para acompanhar — e superar — o crescimento populacional. Caso contrário, a economia pode produzir mais e, ainda assim, cada habitante, em média, produzir e apropriar-se de uma parcela menor dessa riqueza.
Santa Catarina torna esse mecanismo particularmente evidente. O estado apresentou o maior saldo migratório do país entre 2017 e 2022. Algumas das regiões que mais receberam população, porém, não foram necessariamente aquelas que conseguiram converter esse crescimento demográfico em maior PIB per capita.
O Sudeste é talvez o exemplo mais provocativo. A região incorporou cerca de 361 mil novos habitantes entre 2015 e 2025, crescimento populacional de 32,5%, mas registrou a maior retração do PIB per capita entre as regiões catarinenses: -12,1%. O Vale do Itapocu apresentou dinâmica semelhante: crescimento populacional de 27,9% e praticamente nenhuma expansão do PIB per capita.
Mas o contraponto é ainda mais interessante.
Extremo-Oeste, Centro-Norte, Planalto-Norte, Alto Vale do Itajaí e Oeste são exemplos importantes. Entre 2015 e 2025, o PIB per capita cresceu 31,7% no Extremo-Oeste, 20,6% no Centro-Norte, 19,0% no Planalto Norte e 15,7% no Alto Vale do Itajaí. Em outras palavras, essas regiões conseguiram transformar parte da expansão populacional em aumento da produção por habitante, mesmo sem contar com a mesma excepcionalidade econômica portuária observada na Foz do Rio Itajaí, que registrou 20,1% de crescimento no mesmo período.
O contraste com o Sudeste, o Vale do Itajaí e o Vale do Itapocu é revelador. Nessas regiões, o crescimento populacional foi acompanhado por retração ou estagnação do PIB per capita. O problema, portanto, parece estar menos no fenômeno migratório em si e mais na capacidade de cada economia regional de converter o crescimento da população em aumento de produtividade e renda.
A diferença sugere uma hipótese importante: não é a migração que determina o resultado econômico. É a capacidade da economia regional de absorvê-la.
Os resultados, contudo, ainda não permitem afirmar quais fatores explicam, de forma causal, as diferenças observadas entre as regiões. A distância entre aquelas que conseguiram ampliar o PIB per capita e aquelas em que o indicador recuou provavelmente resulta de uma combinação de características econômicas, demográficas e territoriais próprias de cada região. Estrutura produtiva, composição setorial, produtividade, qualificação da mão de obra, capacidade de inovação, infraestrutura, dinâmica empresarial, acesso a mercados e condições urbanas podem produzir diferentes capacidades de resposta ao crescimento populacional. A literatura recente sobre desenvolvimento regional reforça justamente essa perspectiva: diferenças de produtividade entre territórios estão associadas não apenas à composição das atividades econômicas, mas também a fatores como inovação, capital humano, infraestrutura, instituições e economias de aglomeração. Portanto, compreender por que algumas regiões catarinenses transformaram o crescimento populacional em aumento do PIB per capita, enquanto outras apresentaram deterioração do indicador, exige uma agenda de investigação especificamente regional. O próximo passo não é apenas identificar onde o PIB per capita cresceu ou caiu, mas entender o que essas regiões fizeram — ou deixaram de fazer — para produzir resultados tão diferentes.